Ai que vexame

Estava a ler o blog da minha querida amiga Marcita, quando me lembrei de um dos maiores vexames por que já passei. É ou não verdade que a menina, quando está começando a entrar naquela fase de "quero ser mocinha", "não sou mais criança", "tenho idade para tomar minhas decisões", quer porque quer que os seios fiquem avantajados, sentir na pele o que é TPM ou dizer logo que já é adolescente? Pois é, para mim, memorável será para sempre o dia em que meu corpo começou a se transformar.

Você nunca imagina quando um dia será diferente dos outros. Rotineiramente, acorda no mesmo horário todos os dias, come, vai para o trabalho ou a escola, enfim, obedece a um cotidiano pouco mutável. De repente, sem que se perceba, não somente fatos alegres, mas também detalhes funestos se tornam marcas pessoais históricas.

Muita gente esperou pelo fim do mundo no dia 11 de agosto de 1999. O dia 11 de setembro de 2001 foi marcado para sempre devido aos ataques terroristas às torres gêmeas. O Brasil foi penta no dia 30 de junho de 2002 e, enquanto o hexa não chegar, essa será a data mais importante para a seleção brasileira. E por aí vai. A história tem um monte de registros que recheiam a memória do mundo todo.

Nos livros de história não há registro do que aconteceu comigo no dia 18 de agosto de 1998, mas na minha história, esse dia tem um lugar especial. Um tanto amargo por assim dizer, mas, ainda assim, especial.

Como de costume, levantei-me às 6h30min, lavei o rosto, arrumei-me para a escola, e tomei o desjejum. Fui para a aula, e durante toda a manhã, tive uma sensação esquisita nas costas. Como nunca havia sentido tal incômodo, preocupei-me um pouco, mas, como não podia fazer nada, fiquei quieta na minha. Depois do intervalo de aula, comecei a sentir que minhas coxas estavam bem molhadas. "Nossa, que negócio esquisito", pensei eu, "será que fiz xixi sem perceber?". Como estava quase na hora do retorno ao meu querido lar, permaneci na minha. Não pedi ao professor uma folga, mas também não me atrevi a levantar da cadeira. Já pensou alguém me ver cheia de xixi? No final da aula, senti como se tivesse entrado em uma piscina até a cintura. O sinal bateu, e eu esperei todo mundo ir embora. Mas uma hora tinha que me mover do lugar. Obriguei-me a ficar de pé. Verifiquei a cadeira*, mas não tinha nada de anormal nela, pelo menos foi o que pensei.

Quando saí pelos corredores, ouvi burburinhos e vi os olhos todos em torno da minha traseira. "(...) É coisa da minha cabeça, é coisa da minha cabeça". Fui correndo pra casa. Quando cheguei e me sentei no "troninho", passou um monte de coisas na minha cabeça. Entre elas, conversas sobre ficar mocinha com um monte de amigas minhas que aconteceram apenas algumas semanas antes.

Olhei minhas calças. Parecia que tinha levado um tiro nas pernas. Estava tudo vermelho. Fiquei olhando, olhando e olhando. Na época morava com o pai. Não contaria tal incidente pra ele, imagina. Recorri à Leusa, que na época ajudava nos afazeres domésticos lá em casa.

Ansiava para que aquele dia chegasse. Minhas amigas se gabavam por serem mocinhas, "você ainda não é?". Nossa, da maneira como elas falavam, parecia que sentir dor, ficar inchada e andar com uma fralda presa nas calças era sinônimo de ter o mundo nas mãos e ser uma mulher completamente independente. Por isso, sonhava com o dia da minha transformação de menininha em mulher. Senti muita vergonha por ter exposto essa transformação para meus colegas. Mas os primeiros meses da novidade foram uma das maiores realizações da minha vida. Depois percebi que esse fenômeno fisiológico é bem chatinho. Mas agradeço por existir. Por causa dele, tenho a minha pipoquinha linda.

*Não havia nada de anormal na cadeira, porque a cor dela era mogno, quase a mesma do sangue...

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